Pular para o conteúdo

OPINIÃO | Dia Mundial da Água 2026: gestão consciente, equidade e fortalecimento do Estado

Por Álvaro B. H. Silva, engenheiro (ERCE) da Fundação Nacional de Saúde (FUNASA), e Almir Cezar C. Baptista Fº, economista (ERCE) do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA)

Celebrado em 22 de março, o Dia Mundial da Água não deve ser tratado apenas como uma efeméride, mas como um momento de reflexão sobre a gestão de um recurso estratégico para o desenvolvimento econômico e social. Instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1993, a data remete às discussões da Eco-92, no Rio de Janeiro, e reforça a centralidade da água nas agendas contemporâneas.

Em um país que concentra cerca de 12% da água doce do planeta, os desafios não decorrem da escassez absoluta, mas da forma como esse recurso é gerido. Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) indicam que o índice de perdas na distribuição permanece elevado, com níveis de Água Não Faturada (Non-Revenue Water – NRW) superiores a 35% do volume produzido, evidenciando fragilidades estruturais na infraestrutura e na governança do setor.

Esse quadro revela um paradoxo: abundância hídrica combinada com baixa eficiência sistêmica. A superação desse desafio exige mais do que investimentos pontuais. Demanda planejamento de longo prazo, coordenação interfederativa e capacidade técnica para formular, implementar e monitorar políticas públicas, com base em indicadores de desempenho, metas regulatórias e mecanismos de avaliação contínua.

O tema global de 2026, “Água e Gênero”, amplia esse debate ao evidenciar que o acesso à água e ao saneamento está diretamente relacionado à equidade social. Em diversas regiões, a responsabilidade pela coleta de água recai sobre mulheres, meninas e crianças, gerando impactos sobre o tempo disponível para educação, trabalho e autonomia. A gestão da água, nesse contexto, também deve ser compreendida como instrumento de redução de desigualdades.

A universalização do acesso à água de qualidade passa, necessariamente, pelo fortalecimento das capacidades estatais. A redução de perdas, a ampliação da cobertura de saneamento e a melhoria dos sistemas de distribuição dependem de estruturas institucionais sólidas, regulação eficaz e quadros técnicos qualificados, capazes de atuar de forma integrada no planejamento, na execução e no controle das políticas públicas.

Além disso, a gestão eficiente da água envolve dimensões intersetoriais, como planejamento urbano, infraestrutura, meio ambiente e desenvolvimento regional. A ausência de integração entre essas áreas compromete a efetividade das políticas públicas e perpetua desigualdades no acesso a serviços essenciais, especialmente em áreas periféricas e regiões de menor dinamismo econômico.

No nível domiciliar, a redução de vazamentos — inserida no contexto mais amplo da Água Não Faturada (Non-Revenue Water – NRW) — é componente central da eficiência do sistema. Parte dessas perdas corresponde a perdas reais (físicas), decorrentes de vazamentos na rede e nas instalações prediais, enquanto outra parcela refere-se a perdas aparentes, associadas a falhas de medição, ligações irregulares e ineficiências comerciais. A adoção de tecnologias de reúso, como sistemas de captação de água pluvial e soluções com membranas de ultrafiltração, contribui para reduzir a demanda efetiva sem comprometer o bem-estar.

Esse movimento exige alinhamento normativo — a exemplo das diretrizes da NBR 17076, da NBR 5626/2020 e das políticas de recursos hídricos —, além de educação ambiental orientada ao uso consciente. Trata-se, também, de uma agenda com impactos econômicos relevantes, ao reduzir custos sistêmicos, elevar a eficiência operacional e contribuir para o empoderamento de diferentes segmentos da população.

Embora mudanças de comportamento no consumo doméstico sejam relevantes, elas não substituem a necessidade de políticas estruturantes. A atenção a vazamentos, o uso racional no dia a dia e o reaproveitamento de água contribuem para a sustentabilidade, mas devem estar articulados a uma estratégia mais ampla de gestão pública, orientada por planejamento, regulação e investimento.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *