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OPINIÃO | Engenharia, Estado e Consciência Negra: André e Antônio Rebouças e o sentido da ERCE no Brasil contemporâneo

Uma reflexão sobre o Dia da Consciência Negra e o legado dos engenheiros Rebouças para a Administração Pública Federal, o desenvolvimento nacional e a carreira ERCE.

No Brasil, desenvolvimento, engenharia e luta antirracista nunca foram campos separados. No Dia da Consciência Negra, lembrar o legado de André e Antônio Rebouças — engenheiros, abolicionistas, inovadores técnicos e servidores públicos do Império — é reconhecer que a ERCE tem raízes mais profundas do que a própria República admite: raízes negras, republicanas, modernizadoras e profundamente comprometidas com o país real.

Por Almir Cezar de Carvalho Baptista Filho, servidor da ERCE

Atenção: O artigo é um texto de opinião, seu conteúdo não representa necessariamente as posições do SINAEG e sua diretoria e a responsabilidade das afirmações aqui contidas são de seu autor.

I. Introdução — 20 de Novembro, Consciência Negra e a história técnica que o Estado ainda não reconhece

O Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, costuma ser recordado pelo signo da resistência — Zumbi, Dandara, Palmares, quilombos e luta coletiva. Mas esta data também deveria convocar o Estado brasileiro a revisitar uma parte menos lembrada da sua própria formação: a contribuição técnica, científica e institucional de profissionais negros que ajudaram a construir a infraestrutura material, urbana e administrativa do país. Entre esses nomes, dois se impõem não apenas pela biografia, mas pela força simbólica e pelo legado institucional: os engenheiros André e Antônio Rebouças.

Filhos de um homem negro livre — Antônio Pereira Rebouças, figura de destaque jurídico e político do Império —, os irmãos Rebouças ascenderam, no século XIX, a posições raríssimas para homens negros em uma sociedade escravocrata. Foram engenheiros formados, servidores públicos requisitados, inovadores técnicos respeitados e intelectuais que pensaram o Brasil com a ambição e a radicalidade que a República, quando chegou, não teve coragem de sustentar. Projetaram estradas, portos, obras de saneamento, sistemas de abastecimento e soluções técnicas de vanguarda para o segundo reinado. Defenderam o fim da escravidão quando essa posição ainda era minoritária. Pagaram o preço da ousadia: exílio, apagamento, silêncio histórico.

No dia 20 de novembro, é impossível ignorar a ironia histórica. Celebramos a consciência negra, mas seguimos convivendo com um Estado que, ao longo de mais de um século, raramente reconheceu que parte de sua capacidade técnica — sua engenharia, sua modernização, sua própria racionalidade administrativa — tem raízes negras. Esse apagamento não é mero descuido: é um sintoma de como o racismo estruturou não apenas desigualdades sociais, mas também quem o Estado reconhece como construtor legítimo de sua ação pública.

É aqui que a discussão se encontra com o propósito deste artigo e com a missão do SINAEG, sindicato que reúne a carreira ERCE, criada pela Lei nº 12.277/2010, e que integra engenheiros, arquitetos, economistas, estatísticos e geólogos presentes hoje em mais de quarenta órgãos do Poder Executivo Federal. Se em um artigo anterior reivindicava o papel dos servidores da ERCE dentro do Estado, este busca afirmar que os engenheiros da carreira ERCE também possuem uma genealogia histórica e política — e que essa genealogia inclui, necessariamente, André e Antônio Rebouças.

Celebrar os Rebouças não é apenas um gesto de memória. É reconhecer que a ERCE, como carreira transversal do Estado, tem uma identidade que ultrapassa a técnica: ela expressa a continuidade institucional de profissionais que, desde o século XIX, atuam na interface entre infraestrutura, território, desenvolvimento, justiça social e Brasil real. E que, tal como os Rebouças, exercem sua função sob a convicção de que a engenharia não é neutra: ela organiza espaço, molda economias, produz inclusão ou exclusão, democratiza oportunidades ou as restringe.

O objetivo deste artigo é, portanto, duplo. Primeiro, recolocar os engenheiros André e Antônio Rebouças no centro da história técnica e institucional do país, como referências afirmativas para os servidores públicos da engenharia. Segundo, convidar os engenheiros da carreira ERCE — e toda a categoria — a reconhecer nesse legado uma dimensão de pertencimento, uma linhagem política e intelectual que dialoga com o projeto constitucional de desenvolvimento nacional previsto em 1988.

Se a história do Brasil foi, demasiadas vezes, contada sem os Rebouças, é hora de recontá-la. E se o Estado brasileiro insiste em esquecer os engenheiros negros que o modernizaram, cabe à própria carreira ERCE reivindicar essa memória — e, ao fazê-lo, reivindicar também um projeto de país.

II. Quem foram André e Antônio Rebouças — Engenheiros, servidores públicos e intelectuais negros do Brasil imperial

A trajetória dos irmãos André Rebouças (1838–1898) e Antônio Rebouças (1839–1880) ocupa um lugar singular — e injustamente marginalizado — na história brasileira. Em pleno século XIX, numa sociedade estruturada pela escravidão e pelo racismo, os Rebouças não apenas se formaram engenheiros pela Escola Militar, então o principal centro de formação técnica do país, mas também se tornaram servidores públicos de alto nível, autores de obras de engenharia que moldaram a infraestrutura do Império e anteciparam temas que a República só conseguiria formular décadas depois.

Ambos ingressaram na engenharia em um momento em que o país aspirava modernizar sua economia e superar o atraso técnico herdado do período colonial. Como engenheiros militares e civis, trabalharam em ferrovias, portos, estradas, obras de saneamento, abastecimento de água, hidrologia, urbanismo e planejamento territorial. André projetou sistemas de abastecimento de água no Rio de Janeiro, atuou no melhoramento dos portos da então capital, participou do desenho de ferrovias estratégicas para integrar regiões isoladas e propôs soluções técnicas para obras que, naquele tempo, desafiavam a engenharia nacional. Antônio, por sua vez, destacou-se em obras de infraestrutura e atuou como consultor técnico em projetos públicos, além de colaborar na formulação de estudos sobre modernização urbana e desenvolvimento.

Mas os Rebouças foram mais que engenheiros: foram intelectuais de Estado, personagens centrais do pensamento brasileiro da segunda metade do XIX. André tornou-se um dos nomes mais importantes do abolicionismo brasileiro, articulando ideias econômicas, jurídicas e sociais para defender o fim imediato da escravidão — décadas antes da Lei Áurea. Seus escritos sobre economia política, reforma agrária, crédito agrícola, colonização e desenvolvimento antecipam debates que a CEPAL retomaria apenas no século XX, e que Celso Furtado (que, coincidentemente, no dia 20 deste ano completa-se 21 anos de seu passamento) levaria a um patamar superior mais de cem anos depois.

Esse papel duplo — engenheiros de obra e engenheiros de Estado — é o que faz dos Rebouças figuras tão paradigmáticas para a Administração Pública brasileira. Eles atuaram como servidores públicos completos: técnicos que projetam, intelectuais que pensam, cidadãos que intervêm, profissionais que compreendem que a engenharia não é apenas cálculo, mas política; não é apenas infraestrutura, mas projeto de país.

É também por isso que foram silenciados. Em um Brasil escravocrata, a existência de engenheiros negros altamente qualificados, ocupando posições estratégicas no aparelho estatal, representava uma ruptura política e simbólica profunda. E, após a abolição, quando o país optou por um projeto de branqueamento e apagamento das contribuições negras, a memória dos Rebouças foi empurrada para as margens da historiografia oficial. André terminou exilado em Funchal, onde morreu solitário, lamentando a República oligárquica que frustrara seus sonhos de reforma social.

No entanto, o legado deles permanece. É possível traçar um fio histórico que liga os Rebouças às missões contemporâneas do Estado: infraestrutura, território, cidades, desenvolvimento, soberania, redução das desigualdades. E é possível ligar esse fio diretamente aos engenheiros da carreira ERCE, que hoje ocupam funções que, no século XIX, já eram exercidas pelos irmãos Rebouças — como se eles fossem, de certo modo, antepassados profissionais da engenharia pública federal.

A história dos Rebouças, portanto, não pertence apenas ao passado. Ela pertence àquelas carreiras, como a ERCE, que compreendem a engenharia como instrumento de desenvolvimento nacional, justiça social e emancipação. Pertence àqueles que sabem que a técnica, quando posta a serviço do povo, transforma estruturas — e que, quando guiada por convicções éticas e políticas, constrói países.

III. Engenharia, raça e Estado — o apagamento estrutural da presença negra nas carreiras públicas

A história dos Rebouças dialoga com uma verdade incômoda: o Brasil moderno foi construído sobre o trabalho, a inteligência e a criatividade de pessoas negras — mas raramente lhes reconheceu autoria, mérito ou pertencimento. Esse mecanismo não foi apenas social; foi também institucional. Ao longo do século XIX e boa parte do XX, as carreiras técnicas do Estado brasileiro — engenharia, arquitetura, economia, estatística, geologia — foram organizadas de forma a excluir, pela origem social e pela barreira racial, a presença negra em seus quadros. A engenharia tornou-se, no imaginário e nas práticas institucionais, um espaço “naturalmente branco”, como se técnica e branquitude fossem sinônimos.

Os Rebouças foram uma exceção histórica que confirma a regra. Justamente por existirem, expuseram a natureza política da exclusão racial. E o que se viu após sua morte foi revelador: a República apagou a memória institucional dos engenheiros negros, e as gerações seguintes cresceram sem referências de que a engenharia pública brasileira tinha, no século XIX, dois dos seus maiores nomes oriundos da população negra. Esse apagamento não foi neutro: impactou a formação dos quadros estatais, os currículos universitários, os concursos públicos e a narrativa institucional sobre quem “tem lugar” na engenharia estatal.

Mesmo após a Constituição de 1988 — que inaugura um novo horizonte de direitos e democratização —, a presença de pessoas negras nas carreiras de engenharia do Estado permanece reduzida. A ausência é visível nos ministérios de infraestrutura, energia, recursos hídricos, saneamento, meio ambiente, defesa, cidades e planejamento territorial. Nas autarquias e estatais, o quadro não difere muito. Não é difícil mapear as causas: desigualdade de renda, barreiras educacionais, baixa permanência no ensino superior, falta de políticas de estímulo e um legado institucional pouco disposto a enfrentar seu próprio racismo estrutural.

É neste contexto que a carreira ERCE — ao reunir engenheiros, arquitetos, economistas, estatísticos e geólogos em um mesmo plano transversal — ganha relevância. Pela sua presença em mais de quarenta órgãos federais e pela natureza finalística de suas atribuições, a ERCE encarna hoje uma forma moderna de engenharia pública de Estado, semelhante, em propósito, àquela exercida pelos Rebouças no século XIX. Reconhecer o legado dos Rebouças é, portanto, mais do que um gesto histórico: é um movimento de afirmação identitária, que confronta o apagamento racial no interior do Estado e reposiciona a engenharia como instrumento de inclusão, diversidade e desenvolvimento.

Se, no século XIX, a exclusão racial foi usada como mecanismo de definição de “competência técnica”, cabe agora às instituições — e às carreiras estatais, como a ERCE — fazer o movimento contrário: incorporar a perspectiva antirracista como parte da racionalidade da engenharia pública, entendendo que diversidade é um ativo institucional e que técnica e justiça social são dimensões inseparáveis da construção do país.

IV. O legado dos Rebouças como modelo de servidor público técnico e comprometido com o país

A trajetória dos irmãos Rebouças não se resume a feitos individuais ou obras de engenharia. O que torna sua presença tão atual — e tão necessária — é a forma como encarnaram um tipo específico de servidor público: o profissional técnico que compreende o Estado como projeto, e não apenas como estrutura administrativa. Os Rebouças foram engenheiros que também pensavam economia, território, agricultura, modernização urbana, política internacional, reforma social. Anteciparam, de certa maneira, a ideia contemporânea de uma carreira transversal, capaz de circular entre áreas distintas sem perder rigor técnico ou horizonte estratégico.

Esse perfil — técnico, intelectual e cidadão — faz deles um espelho histórico para os engenheiros do Poder Executivo Federal. Os Rebouças operavam com uma concepção ampliada de engenharia: não apenas cálculos e obras, mas a engenharia como instrumento de desenvolvimento nacional, capaz de estruturar mercados, integrar regiões, organizar cidades, expandir fronteiras produtivas, reduzir desigualdades e apoiar a construção de um país soberano. Eles exprimiam o que havia de mais moderno no pensamento técnico brasileiro da época, relacionando os fundamentos da engenharia ao que hoje chamamos de desenvolvimento econômico, políticas públicas, ordenamento territorial e justiça social.

No trabalho cotidiano, tanto André quanto Antônio funcionavam como equipes inteiras: levantavam dados, diagnosticavam problemas, propunham soluções, elaboravam estudos, redigiam pareceres, dialogavam com tomadores de decisão, supervisionavam obras, negociavam com atores privados, articulavam outros órgãos e, ao mesmo tempo, produziam pensamento estratégico. Sua atuação alcançava aquilo que, hoje, se reconheceria como ciclo completo de políticas públicas — da formulação à avaliação.

Esse modo de agir está muito próximo do que se espera, no século XXI, dos servidores da carreira ERCE. Engenheiros que atuam no Estado brasileiro não são — e nunca foram — profissionais limitados à execução de projetos: são agentes que trabalham na fronteira entre técnica e política, que interpretam variáveis econômicas, ambientais, territoriais e sociais, que traduzem demandas da sociedade em soluções de infraestrutura, que antecipam problemas e que constroem caminhos para o futuro.

É por isso que o legado dos Rebouças, quando recuperado, ilumina a identidade da ERCE. Os Rebouças representam:

  • a transversalidade técnica que estrutura o Estado,
  • a capacidade de circular entre temas e ministérios,
  • a visão estratégica que supera o imediatismo gerencial,
  • a engenharia como missão pública,
  • o compromisso com o desenvolvimento e a emancipação de um país desigual.

No século XIX, eles foram a demonstração concreta de que o Estado brasileiro só poderia se modernizar com técnica qualificada e compromisso social. No século XXI, os engenheiros da ERCE ocupam exatamente esse mesmo lugar — em um país que, apesar de mais complexo, continua exigindo de suas carreiras técnicas a mesma combinação de rigor, visão, coragem e responsabilidade histórica.

Assim como os Rebouças, engenheiros hoje não apenas constroem obras: constroem o próprio Estado. E, ao fazê-lo, constroem também as condições de existência de um Brasil menos desigual, mais soberano e mais capaz de enfrentar a transição energética, as desigualdades regionais e os desafios urbanos do presente.

V. Por que os engenheiros da carreira ERCE deveriam reivindicar esse legado

Reivindicar o legado dos Rebouças não é uma homenagem meramente simbólica. É afirmar uma genealogia profissional que o Estado brasileiro historicamente omitiu e que, justamente por isso, precisa ser recuperada pela própria comunidade que a herda. Os engenheiros da carreira ERCE, dispersos hoje por mais de quarenta órgãos do Poder Executivo Federal, são sucessores diretos de uma tradição de engenharia pública que, no século XIX, encontrou nos Rebouças sua expressão mais avançada. E é justamente essa linhagem que oferece à ERCE um referencial teórico, histórico e ético para compreender sua função estruturante no Estado contemporâneo.

A ERCE é, por definição legal, uma carreira transversal, vocacionada a atuar em políticas públicas que vão da infraestrutura ao meio ambiente, da agricultura à indústria, das cidades ao desenvolvimento regional, da defesa ao patrimônio da União. Em cada um desses campos, os engenheiros desempenham funções que remetem à prática dos Rebouças: diagnósticos, estudos técnicos, análises de viabilidade, pareceres, fiscalização, supervisão, formulação e avaliação de políticas econômicas setoriais. São atividades que exigem não apenas domínio técnico, mas compreensão estratégica do país — exatamente como os irmãos Rebouças demonstraram, em seu tempo, ser possível e necessário.

Ao reivindicar esse legado, os engenheiros da ERCE fazem duas operações fundamentais. A primeira é política: confrontam o apagamento racial que marcou a formação das carreiras técnicas do Estado e afirmam que a engenharia brasileira tem raízes negras, republicanas e modernizadoras. A segunda é institucional: reconhecem que seu papel no Estado não se limita à execução técnica, mas envolve pensar, formular, orientar e coordenar políticas públicas que estruturam o desenvolvimento nacional.

Há ainda um terceiro aspecto, muitas vezes negligenciado: os Rebouças foram engenheiros que formularam ideias sobre o país — ideias sobre território, agricultura, cidade, economia e sociedade. Eles anteciparam, com mais de um século de distância, temas hoje centrais para a ERCE: planejamento territorial, integração regional, soberania alimentar, infraestrutura hídrica, urbanização inclusiva, reforma agrária, modernização produtiva. Reivindicar esse legado, portanto, significa enxergar que a atuação da ERCE não se limita à técnica aplicada, mas inclui também a reflexão estratégica que orienta o Estado brasileiro.

Ao conectar-se a essa genealogia, a ERCE se fortalece enquanto carreira de Estado — uma carreira que, diferentemente de estruturas corporativas mais recentes, tem uma história profunda, anterior à própria República, fundada na ideia de que engenharia é instrumento de emancipação nacional. Em um contexto de disputas sobre o papel do Estado, sobre a capacidade pública e sobre o desenvolvimento, lembrar os Rebouças é lembrar que o Brasil já teve — e pode voltar a ter — uma engenharia pública capaz de imaginar o futuro e de construí-lo.

Por isso, o legado dos Rebouças não é apenas inspiração: é um chamado. Um chamado para que os engenheiros da ERCE se reconheçam como herdeiros de uma tradição histórica valiosa, e para que o Estado brasileiro reconheça, enfim, que essa carreira ocupa um lugar estratégico na construção de um projeto nacional de desenvolvimento — um lugar que, no século XIX, já era ocupado por dois engenheiros negros que ousaram pensar e transformar o Brasil para além de seu tempo.

VI. Engenharia, desenvolvimento e a agenda do Estado no século XXI — o que o legado dos Rebouças nos ensina hoje

O Brasil do século XXI enfrenta desafios que, embora revestidos de novas tecnologias e complexidades globais, ainda guardam um núcleo estrutural semelhante àquele identificado pelos irmãos Rebouças no século XIX: desigualdades regionais profundas, fragilidades urbanas, carências de infraestrutura, dependência tecnológica e um Estado frequentemente tensionado entre projetos de nação divergentes. É nesse cenário que a engenharia pública — e, em particular, os engenheiros da carreira ERCE — volta a ocupar um papel estratégico, não apenas como executores de obras, mas como formuladores de soluções estruturantes.

A agenda contemporânea dialoga diretamente com a visão dos Rebouças. O país precisa de infraestrutura ambientalmente sustentável, de sistemas de abastecimento hídrico resilientes, de saneamento universal, de mobilidade urbana eficiente, de logística integrada e de capacidade de gestão do território em escala nacional. Precisa de transição energética justa, com renováveis, hidrogênio verde, redes inteligentes, uso racional de recursos naturais e integração das cadeias industriais ao esforço climático global. Precisa, sobretudo, de neoindustrialização, capaz de recompor complexidade produtiva, gerar empregos qualificados e reduzir a dependência externa.

Essa agenda não é gerencial; é estrutural. Exige visão de longo prazo, coordenação federativa, políticas públicas consistentes e capacidade técnica no interior do Estado — exatamente o tipo de atuação que os Rebouças desempenharam no seu tempo e que os engenheiros da ERCE desempenham hoje. Em áreas como agricultura, energia, mineração, cidades, infraestrutura hídrica, transportes, meio ambiente, defesa civil, cartografia, geologia e planejamento territorial, a ERCE é responsável por tarefas estratégicas que definem a qualidade da resposta estatal e o alcance das políticas públicas.

Há, porém, um aspecto adicional: o país enfrenta, agora de forma explícita, a necessidade de integrar justiça racial ao núcleo das políticas de desenvolvimento. Não há projeto nacional possível se as desigualdades raciais não forem consideradas na formulação, execução e avaliação das políticas públicas. A engenharia — sobretudo a engenharia estatal — não está fora desse debate; ao contrário, é sua protagonista silenciosa. É a engenharia que define onde investir, como urbanizar, o que priorizar, que infraestrutura chega a quem, que territórios permanecem marginalizados e quais são integrados aos circuitos econômicos.

É justamente aqui que o legado dos Rebouças assume sua importância pedagógica. Eles demonstraram que técnica e justiça social não são esferas separadas. Defenderam, simultaneamente, obras de infraestrutura e o fim da escravidão; redes urbanas modernas e reforma agrária; modernização produtiva e redistribuição de renda. Mostraram que desenvolvimento não é apenas crescimento econômico, mas alteração profunda das estruturas sociais, orientada por valores de dignidade, igualdade e soberania.

No século XXI, os engenheiros da ERCE podem — e devem — atuar nessa chave. A técnica não pode ser reduzida a contratos, planilhas, cronogramas ou métricas gerenciais. Ela é, antes de tudo, uma forma de ordenar o espaço social e material do país. E isso implica escolhas: entre modelos de cidade, de território, de energia, de produção, de integração regional, de sustentabilidade e de justiça social. O Brasil só terá um desenvolvimento verdadeiramente democrático se a engenharia pública recuperar esse horizonte — o horizonte que os Rebouças inauguraram e que a ERCE está, hoje, em posição privilegiada para retomar.

VII. Considerações finais — Celebrar os Rebouças é celebrar a ERCE, o Estado e o projeto de país que ainda disputa o futuro

Celebrar o Dia da Consciência Negra e recordar os engenheiros André e Antônio Rebouças não é apenas um gesto de memória histórica: é um ato de afirmação institucional. Os Rebouças representam uma linhagem técnica, intelectual e política que o Brasil tentou apagar, mas que sobrevive — silenciosa, subterrânea, pulsante — em cada servidor público que compreende sua profissão como missão de Estado e não como ocupação burocrática. A trajetória dos irmãos Rebouças demonstra que a engenharia pública brasileira nasceu vinculada à ideia de transformação social, justiça racial e emancipação nacional. E que, quando exercida com essa amplitude, a engenharia se converte em instrumento de construção coletiva de país.

Ao revisitar o legado dos Rebouças, a carreira ERCE reconhece sua própria identidade. Engenheiros, arquitetos, economistas, estatísticos e geólogos do Poder Executivo Federal compartilham, hoje, o mesmo desafio que os Rebouças enfrentaram no século XIX: dar coerência técnica e visão estratégica a um Estado que, em diferentes momentos da história, oscilou entre projetos de modernização e projetos de exclusão. Em um país marcado por desigualdades profundas, a ERCE ocupa um lugar decisivo na formulação e na implementação das políticas estruturantes — aquelas que moldam território, cidades, cadeias produtivas, infraestrutura, mercados e oportunidades.

O legado dos Rebouças ilumina, ainda, um ponto essencial para o futuro das carreiras técnicas do Estado: não há engenharia neutra. Toda obra, todo plano, todo parecer e toda política pública carregam escolhas sobre quem será integrado e quem permanecerá à margem. A ERCE, por sua transversalidade e pela presença em mais de quarenta órgãos federais, está em posição privilegiada para influenciar essas escolhas — para orientar a ação estatal em direção a um desenvolvimento que seja, simultaneamente, tecnológico, ambientalmente responsável e socialmente justo.

Por isso, celebrar André e Antônio Rebouças no 20 de novembro é celebrar também a capacidade do Estado brasileiro de reconhecer os seus. É afirmar que a engenharia pública, quando exercida com responsabilidade histórica, é ferramenta de libertação, não de perpetuação de desigualdades. É afirmar que a carreira ERCE tem raízes mais profundas do que supõe sua origem legal — raízes que atravessam o Império, alcançam a República e se consolidam na Constituição de 1988.

Os Rebouças nos lembram que técnica sem compromisso é cálculo vazio, e compromisso sem técnica é retórica impotente. A grandeza deles está justamente na síntese dessas duas dimensões. Que os engenheiros da ERCE, ao celebrar seu legado, encontrem nele não apenas inspiração, mas também um espelho: o espelho de uma engenharia que constrói país, expande direitos, enfrenta desigualdades e carrega consigo a coragem de imaginar um Brasil que ainda não existe — mas que pode existir.

REFERÊNCIAS

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Wikipédia. André Rebouças. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Andr%C3%A9_Rebou%C3%A7as. Acesso em: 23 nov. 2025.

Wikipédia. Antônio Rebouças. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B4nio_Rebou%C3%A7as. Acesso em: 23 nov. 2025.

Wikipédia. Dia da Consciência Negra. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Dia_da_Consci%C3%AAncia_Negra. Acesso em: 23 nov. 2025.

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