Um alerta que permanece: Não se trata apenas de reconstruir, trata-se de prevenir

Quase dois anos após a publicação da carta aberta ao Presidente da República — “Presidente Lula, não deixe as tragédias se repetirem: lembre-se dos ERCEs – A reconstrução está em nossas mãos” (30 de abril de 2024) — o Brasil volta a assistir a uma devastadora tragédia provocada por chuvas intensas, desta vez em Juiz de Fora (MG) e na Zona da Mata Mineira.
Entre os dias 23 e 24 de fevereiro de 2026, volumes extremos de precipitação provocaram enchentes e deslizamentos que resultaram em dezenas de vítimas fatais, milhares de desabrigados e severos danos à infraestrutura urbana. A cidade decretou estado de calamidade pública.
Um alerta que permanece
Na carta de 2024, redigida no contexto das enchentes no Rio Grande do Sul, o SINAEG alertava que a repetição de tragédias climáticas estava diretamente associada à insuficiência de planejamento estrutural, à fragilidade da infraestrutura urbana e à carência de quadros técnicos valorizados no Estado.
Hoje, a realidade de Juiz de Fora confirma que o diagnóstico permanece atual.
As causas estruturais não enfrentadas
A repetição de desastres decorre de fatores conhecidos:
- ocupação urbana em áreas de risco;
- sistemas de drenagem insuficientes;
- ausência de planejamento preventivo de longo prazo;
- intensificação de eventos extremos associados às mudanças climáticas;
- fragilização da capacidade técnica do Estado.
A reconstrução pós-tragédia exige, inevitavelmente, engenheiros, arquitetos, economistas, estatísticos e geólogos — profissionais que estruturam projetos, analisam convênios, acompanham liberações de recursos e formulam políticas públicas de infraestrutura.
A Estrutura Remuneratória dos Cargos Específicos (ERCE) reúne os servidores arquitetos, economistas, engenheiros, estatísticos e geólogos que atuam transversalmente no Poder Executivo Federal, sendo responsáveis por transformar decisões orçamentárias em projetos executivos, análises técnicas e políticas públicas concretas. São esses profissionais que estruturam planos de prevenção, avaliam riscos geotécnicos, modelam impactos econômicos, acompanham convênios, analisam liberações de recursos emergenciais e supervisionam obras de reconstrução.
Em momentos de calamidade, sua atuação deixa de ser abstrata e torna-se material: cada laudo, cada projeto e cada parecer técnico influencia diretamente a segurança das populações afetadas. Valorizar e estruturar adequadamente a ERCE não é uma pauta corporativa — é uma condição objetiva para fortalecer a capacidade preventiva e reconstrutiva do Estado brasileiro.
Mais que resposta emergencial: política de Estado
A mobilização humanitária é necessária e urgente. No entanto, sem investimentos permanentes em infraestrutura resiliente e fortalecimento dos quadros técnicos federais, estaduais e municipais, o país continuará reagindo a tragédias previsíveis.
A carta de 2024 permanece como documento político atual. O apelo ali registrado não perdeu validade — ao contrário, tornou-se ainda mais urgente.
Não se trata apenas de reconstruir. Trata-se de prevenir.