
Em artigo de análise econômica e política, o engenheiro agrônomo Rodrigo Gonçalves de Souza defende que o fim da escala 6×1 deve ser debatido como parte de uma estratégia nacional de desenvolvimento estrutural, produtividade e complexidade econômica — e não apenas como pauta trabalhista isolada. O texto dialoga diretamente com o papel das carreiras técnicas do Estado, como a ERCE, na formulação de políticas públicas de planejamento, regulação e desenvolvimento produtivo.
por Rodrigo Gonçalves de Souza*, engenheiro
Este artigo de opinião não necessariamente reflete as posições do SINAEG
O argumento típico contra a redução da jornada de trabalho (e defesa implícita da escala 6×1) recorre ao tipo de raciocínio: “o problema do Brasil é de produtividade baixa, potencializada por um fechamento comercial — logo, trabalhar mais extensivamente e intensivamente compensa essa deficiência”. Este argumento tem apelo porque ecoa lóbis históricos ecoados pela ideologia econômica que hegemoniza o espaço e voz nos editoriais e redações da imprensa.
Mas cabe aí correções factuais e na cadeia lógica. Propomos submeter então esta apologia a um escrutínio e, a seguir, proporemos caminhos de como o fim da escala 6×1 pode aliar-se a uma política visando o desenvolvimento estrutural produtivo brasileiro.
PREMISSA | “Brasil muito fechado ao comércio” — o argumento é mais fraco do
que parece
O argumento “país fechado” como causa proeminente da baixa produtividade é uma simplificação ideológica que ignora evidências recentes. E é uma afirmação factualmente contestável. O que os dados mostram
INDICADOR MÉDIA MUNDIAL
Tarifa média aplicada (2022, OMC) 5–6%
Trade/GDP ratio 60%+
Abertura relativa ao tamanho —
A relação Exportações+Importações/PIB do Brasil passou de cerca de 20% nos anos 1990 para cerca de
35–38% em 2023–2024, aproximando-se da média de economias de tamanho comparável (EUA:
±27%, Argentina: ±34%). Economias muito abertas como Bélgica, Holanda ou Singapura têm aberturas
comerciais maiores do que 150% do PIB, mas isso é estrutural ao tamanho e à geografia, não à política
comercial. Economias continentais e com mercado interno grande (EUA, China, Índia) tendem a ter
coeficientes de abertura menores
~30% 10–12% 35–38%
Tarifa efetiva média nos anos 1990 Tarifa efetiva média atual Abertura comercial brasileira (2023–24)
O “fechamento” brasileiro reflete em parte essa estrutura, não apenas tarifas. A Tarifa Efetiva Média brasileira caiu de quase 30% nos anos 1990 para cerca de 10–12% hoje. E os acordos Mercosul-UE e com a OCDE em curso profundam essa abertura.
Felipe & Kumar (2011) demonstram que a correlação abertura/produtividade depende criticamente de para onde você exporta, não apenas se você exporta. Exportar soja com alta produtividade física não move o país no espaço do produto para produtos de maior complexidade.
O Brasil tem baixíssima densidade de vizinhança no espaço do produto para produtos manufaturados complexos. O Índice de Desenvolvimento Estrutural mostra que o Brasil passou por desindustrialização prematura a partir dos anos 1980–90, quando o setor industrial ainda não tinha maturidade para liberar trabalho para serviços de alta produtividade, diferente do que ocorreu em países do centro da economia-mundo.
PONTO 1 A Definição de Produtividade Vira Contra o Argumento
O apologista da 6×1 pressupõe a definição produtividade como valor adicionado pelo trabalhador em
si, separado do capital. Mas isso inviabiliza o argumento da jornada intensa, porque
LÓGICA INTERNA Se produtividade do trabalho é analiticamente separada do capital, então trabalhar mais horas com o mesmo capital não aumenta produtividade; aumenta apenas o volume de output1 bruto, mantendo ou reduzindo o valor adicionado por hora. A literatura empírica é robusta: acima de certo limiar (em torno de 48–50 horas semanais), horas adicionais geram retornos decrescentes severos em output por hora, por conta de fadiga, erro, absenteísmo e rotatividade
Essa definição ignora que a produtividade do trabalho na prática empírica (ex: OCDE, Banco Mundial, IBGE) é medida como produção por hora trabalhada ou por trabalhador, e esse output já embute o capital com o qual o trabalhador opera. Um operário com um torno CNC produz mais do que um com uma lima. Isso aparece como “produtividade do trabalho”, não como produtividade total dos fatores.
Para continuar lendo o artigo baixe AQUI https://drive.google.com/file/d/1TefnrD_0EEplQJ-BGkklPAPpvGw0Zn43/view?usp=drive_link
Sobre o autor: Rodrigo Gonçalves de Souza – Engenheiro Agrônomo pela UFMG · Licenciado em Geografia pela UniAnhanguera · Especialista em Gestão e Manejo Ambiental pela UFLA · MBA em Gestão Pública pela ENAP · Mestre em Agronegócios pelo PPAGRO/UFG · Doutor em Geografia pelo PPGeo/IESA/UFG. Contato: rodrisou@hotmail.com
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